sábado, 26 de janeiro de 2008

Resenha Visões da Liberdade - por Vieira

Sidney Chalhoub possui graduação em História - Lawrence University (1979), mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (1984) e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1989). Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: Rio de Janeiro, abolição, escravidão, Machado de Assis e literatura. Sua linha de pesquisa atual é História Social da Cultura (linha de pesquisa atual), História Social do Trabalho, Escravidão e Trabalho Livre, Cultura e cidades. Alguns prêmios e títulos recebidos por Sidney Chalhoub foram: Menção Honrosa no Prêmio Casa Grande & Senzala, Fundação Joaquim Nabuco(1999) e Prêmio Jabuti, Câmara Brasileira do Livro(1997). Também é autor de vários artigos e alguns projetos de pesquisas. Uma versão desse livro foi defendida como tese de doutorado em História na unicamp em 1989, a presente versão não é diferente da original. Em sua estrutura, o livro contém 287 páginas divididas em três capítulos.
Sidney Chalhoub não foi o único a escrever obras dentro dessa temática de “Visões da Liberdade”, vários outros autores com os quais chalhoub procurou dialogar para escrever sua obra realizaram Trabalho semelhante. Dentre esses autores destacamos Carlos Ginzburg em “O queijo e os vermes”, procura estudar as idéias, sentimentais, fantasias e aspirações de um moleiro friulano, chamado Domenico Scandela, como via de acesso às mentalidades coletivas do século XVI, italiano. Robert Darnton em “O grande massacre de gatos”, procura revelar muito ousadamente um ingrediente fundamental da cultura artesanal do ancien regime francês, através da velha narrativa de um massacre de gatos executado com grande jocosidade por aprendizes e operários gráficos de uma oficina parisiense.
Segundo chalhoub existe uma lacuna na forma como a discussão sobre o tema vem sendo conduzida até aqui. O que falta ao método de Zadig, em Ginzburg e Darnton, é o “movimento da história”, a preocupação em propor uma teoria explicativa das mudanças históricas. A construção de uma tal teoria é o objeto desse livro. Sendo que ele prefere o termo “processo histórico” em vez de “transição”, pois o que ele pretende é recuperar a indeterminação, a imprevisibilidade dos acontecimentos. Para chalhoub o esforço nesse sentido é essencial para a compreensão adequada do sentido que os personagens históricos de outra época atribuíam às suas próprias lutas. O autor então buscou compreender o significado da liberdade para escravos e libertos, trabalhando quase sempre no campo da interpretação de interpretações, buscando perceber o que os diferentes sujeitos históricos entendiam por escravidão e liberdade, e como interagiam no processo de produção dessas visões ou percepções.
Para chalhoub, o significado da liberdade, para os negros, foi forjado na experiência do cativeiro; e, sem dúvida, um dos processos mais traumáticos da escravidão era a constante compra e venda de seres humanos. Dessa forma, o primeiro capítulo do livro aborda os problemas das percepções e da atitude dos próprios escravos diante das situações de transferências de sua propriedade. Argumentando que havia visões escravas da escravidão que transformava as transações de compra e venda de negros em situações muito mais complexas do que simples trocas de mercado. Os negros tinham sua própria concepção do que era cativeiro justo, e até mesmo tolerável; havia maneiras mais ou menos estabelecidas de os cativos manifestarem sua opinião no momento decisivo da venda.
No segundo capítulo, que encontrou seu impulso inicial num artigo de Manuela Carneiro da Cunha, Chalhoub faz uma análise da ideologia da alforria e suas transformações na corte na segunda metade do século XIX. Centrado principalmente no estudo das ações civis de liberdade, o capítulo defende a necessidade de uma reinterpretação da lei de 28 de setembro de 1871: em alguma de suas disposições mais importantes, como em relação ao pecúlio dos escravos e ao direito a alforria por indenização de preço, a lei do ventre livre representou o direito legal de uma série de direitos que os escravos vinham adquirindo pelo costume, e a aceitação de alguns dos objetivos das lutas dos negros.
A história das lutas dos negros na corte pela liberdade ao longo do século XIX é parte essencial da história da própria cidade do Rio nesse período. O último capítulo, portanto trata da “cidade negra”. Os escravos, libertos e negros livres pobres do Rio de Janeiro instituíram uma cidade própria, arredia e alternativa, possuidora de suas próprias racionalidades e movimentos, e cujo significado fundamental, independentemente ou não das intenções dos sujeitos históricos, foi fazer desmanchar a instituição da escravidão na corte, despertando a fúria demolidora das primeiras administrações republicanas, que perseguiu capoeira, demoliu cortiços, tentou de todas as formas desmontarem o verdadeiro cenário e solapar o significado da luta negra contra a escravidão. O último capítulo relata essa luta, através da reconstituição de seus cenários e significados.
Para a elaboração dessa obra, Sidney Chalhoub utilizou uma bibliografia ampla e diversificada. Utilizou outras obras de autores brasileiros e estrangeiros. A maior parte de sua pesquisa foi realizada no arquivo do primeiro tribunal do júri da cidade do Rio de Janeiro e no arquivo nacional. Pesquisando processos criminais, processos civis, ações civis de liberdade, processos comerciais, chalhoub conseguiu relacionar esses diversos documentos para alcançar o seu objetivo. Também utilizou vários jornais e revistas da época como: jornal do comércio, o globo, gazeta do Rio. Utilizou ainda vários artigos teses folhetos e obras literárias. Esses recursos foram utilizados pelo autor em sua fundamentação teórica para provar suas teses, justificar seus pressupostos e resolver a problemática por ele proposta. Ou seja, a partir de todo esse acervo, documentação e ilustração, ele faz uma análise das últimas décadas da escravidão na corte. Para isso ele utiliza uma linguagem simples e objetiva, facilitando a leitura e compreensão por parte do leitor.
Comparando seu trabalho com outras obras como: às de Walter Fraga Filho, que em suas obras, “Encruzilhadas da Liberdade” e “Mendigos, Moleques e Vadios na Bahia do século XIX”, procurou reconstituir as trajetórias individuais de vida dos negros e suas estratégias de sobrevivência e resistência, e às de Eduardo Silva, que em sua obra, Dom Obá II d’África, O Príncipe do Povo: vida, tempo e pensamento de um homem livre de cor, procura reconstruir um período da história da luta dos negros, pesquisando sobre a vida de um personagem principal. Verificamos algumas semelhanças quanto às fontes e a forma como elas foram utilizadas nessas pesquisas. É impossível não deduzir que essas obras citadas acima foram inspiradas na obra de Sidney Chalhoub.
Chalhoub chama a atenção para uma importante discussão sobre as afinidades entre a História e a Antropologia Social, ampliando seu arcabouço teórico com a exposição de concepção de análise histórica que variam entre autores como Carlos Ginzburg, Robert Darnton, E. P. Tompson, Sidney Mintz e o antropólogo Clifford Geertz. Também faz críticas ao que ele chama de “teoria da coisificação” do negro e a seus autores Fernando Henrique Cardoso e Jacob Gorend.
De acordo com a investigação feita pelo autor em livros, em documentos que se propôs a estudar, eu acho que o resultado foi muito positivo, uma vez que cumpriu o objetivo a que se propôs. O livro esclarece diversos aspectos da visão e percepção dos negros sobre a liberdade, nas últimas décadas do século XIX, no Rio de Janeiro, que são imprescindíveis para a compreensão da História das lutas dos negros pela liberdade e de como ocorreu esse processo. Eu indicaria a obra para alunos de História do ensino superior e médio, por ser esclarecedora em vários aspectos da nossa História. Para sociólogo, antropólogo e o público em geral interessado em boa leitura e em História dos negros no Brasil.


Referência:
CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

2 comentários:

fab disse...

a obra de Mary Karasch , a vida dos escravos no Rio de Janeiro, ajudou em que sentido na construção dessa obra??

Anônimo disse...

A obra de Sidney Chaloub rompe com o paradigma do escravo "coisa" um ser passivo e inrracional, logo, incapaz de lutar de forma autónoma por melhores condições de vida. Dentro dos seus principios de culturais liberdade do que é liberdade o negro sobe resgatar e por a vista dos seus senhores, todas as formas de resistência que eles tinham com relação ao regime de escravidão e maus tratos dos quais eles eram vitimas.